segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Rotina


Acordei sem graça achando que todo sonho viraria realidade, senti um tropeço no chinelo rosa que tanto caminhei naquele dia, mesmo assim continuei por entre os corredores. Eu precisava beber leite. Não que fosse pressuposto para eu me acanhar e dormir de novo, mas depois que bebi, tudo se tornou tão igual novamente que simplesmente me deixei sorrir à medida que meu ego foi crescendo em frente ao espelho. Alisei meus cabelos como qualquer outra manhã, o tempo passava de acordo como qualquer outro segundo passa: rápido, e eu não poderia ser diferente. Ignorei qualquer resto de persuasão sobre mim e abri a porta, o mundo lá fora me esperava, onde me obrigavam a abandonar minha face calada e encarar a hora de ação, a hora em que eu sabia que algum dia iria fazer sentido tudo aquilo que estava acontecendo, assim eu continuava, partindo em uma trajetória retilínea, fazendo com que toda noite eu tivesse o mesmo sentimento: cansaço. Então tomaria um copo de leite e recomeçaria tudo outra vez.



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A gaveta



Resolvi abrir aquela gaveta que de tão áspera suas impurezas, atordoavam meus pensamentos mas mesmo assim não deixei de abri-la para conferir o que havia. Remexi todos aqueles objetos que num instante a gaveta se tornou uma caixa enorme, pois cabia o meu universo todo inteiro lá dentro. Mal sabia eu que abrindo aquela gaveta, eu me tornaria viril e compacta. Articulei-me com palavras proferidas ao tempo por todos aqueles anos, abraços que neguei e que com o tempo senti falta; um sorriso que ofereci sem receber outro em troca e olhares que se cruzaram à minha frente. Os três sentidos da vida: Abraçar, sorrir e trocar olhares. São os atos que mais fazem jus ao amor ao próximo, são os únicos que todos os poetas tentaram entender porque fazia tão sentido explorá-los. Mas não são os únicos que encontrei lá na gaveta. Eu pedi um pouco mais de espaço, e sei disso, pois por causa de tanta bagunça, comecei a só jogar tudo isso de volta na gaveta por falta de paciência a organizar tudo quando precisava de um ou outro. “Voltarei sorrindo ao vento que sopra, voltarei chorando ao vento que me solta” Eu não queria liberdade, queria segurança. Reclamava de tudo o que me prendia, mas não queria ser solta. Controvérsias do meu corpo. Não sabia se queria um ou outro. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Verás que a noite te importa.





Verás que a noite te importa,
Que o sol vai embora,
Que a lua se afoga;

Verás que a noite te importa,
Que a flor já não brota,
Que a grama é linda agora;

Verás que a noite te importa,
Pois o sol e a lua desaparecem,
Tanto quanto a flor e a grama escurecem.

domingo, 17 de junho de 2012

Socorro





Como uma atividade sonolenta, você acorda. Mesmo que não queira, você acorda. É impossível dormir a vida inteira. Luta contra seus epitáfios e levanta com suas pernas que as varias outras pessoas acordam pensando em tê-las. Resmunga uma palavra que tentou produzir, mas são em vão as forças, elas se destroem quando a raiva toma conta. Sai de casa perturbado contra o tempo. Chegar atrasado é sinônimo de incompetência, desconhece que o tempo é maior com paciência. Sorri com falsidade ao vizinho, mas ignora o mendigo, que, profanando suas palavras pede socorro. A luz se esvai, e a noite chega, tomando conta da cidade que se move cada vez mais lenta. O transito para, você resmunga. O transito anda, você pede mais rápido. Buzinas. Acidentes. Você acorda. Acorda em um mundo paralelo e nunca visto antes. Só o que existe é a imagem de um homem sujo, com roupas rasgadas pedindo socorro. Você morreu, e nem teve a chance dar desculpas, dar socorro.



terça-feira, 29 de maio de 2012

A página seis.

O que é preciso para ser feliz? Felicidade, palavra essa que tanto é buscada por fascículos leitores de jornais. Os mesmos que procuram tragédias na página seis. Depois ainda insistem em deixar desvantagem ao calabouço e torna a perguntar qual a necessidade para tal proeza. Exatidão, determinação, e outros ãos, junto ao melodrama de jovens a beira de um mundo fanático por ironias. O mesmo mundo aquele em que as pessoas com a cara na página seis do jornal diário estão inseridas. Depois de tanta enganação, traição, paixão, mais algum ão, vocês ainda buscam o significado e o troféu da felicidade. Logo que acaba algo, seja amor, dor, riso, abraço, você chora, diz que não é feliz e evita a compaixão. Esqueceram que não é porque acabou que continuará no mesmo caminho, não é porque acabou algo o qual você aspirava o eterno que nunca mais será feliz. Aliás se você procurar a felicidade só na dependência de outras coisas, a felicidade nunca será eterna. Mas você insiste em despencar do alto e cair na multidão, junto a uma marcha à procura da felicidade numa noticia na página seis, você está lá. Página da corrupção, da viração, da discriminação. Página do soberbo. Pagina do discrédulo, da eliminação. Pagina do sabor eterno, a página que você estará sempre lá, no rodapé da tal página seis, junto com a pergunta: O que é preciso para ser feliz? Tente virar a página, não é porque você apareceu na página seis de um jornal famoso que você tem que permanecer vidrado lá. Não seja conformista, seu sucesso nessa página não pode durar para sempre. A não ser que você queria continuar na página da desgraça. Vire-a. Mas cuide para não amassar, a página seis poderá voltar para a sua vida, e não é amassada que você poderá ver um ponto final depois de tanto sofrimento. Não se acanhe. A felicidade não é algo ou alguém. O que é preciso para ser feliz? Leia o jornal inteiro, principalmente a página seis, a sua página. Aquilo que você é. É preciso coragem para enfrentar a tristeza até chegar à felicidade. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Há quem diga que é só esquecimento. Desleixo no eixo. Fuga de quem aluga.
Sorte de quem não morre, dentro, centro, e fora. 

Mora. Toca. Esquece.
.
.
.
E uma hora volta.

sábado, 12 de maio de 2012

Astros


Uma melodia para esquecer,
Esquecendo que me recordo,
De como me fiz sofrer
Com estranhas palavras a bordo.

O céu treme com o canto
Que os pássaros o presenteiam
Soluços embaixo do manto
E meus olhos não se chateiam.

Ruas embaixo de pedras
Coloridas como flores
Voando por todas as eras
Com todas as dores.

A lua cobre a melodia
Que tanto quis aparecer,
De tanto que insistia
Fez então o medo sofrer.